Fissura

 "Sabe o que eu acho curioso e às vezes me espanta em nós? Essa conexão anormal que temos.", estava sentado numa cadeira de mesa de computador, estava cansado e só queria dormir, mas juntara algumas forças que lhe restavam para bater aquele papo.

 À sua frente, o que parecia ser uma estátua de uma mulher, feita de pedra que mais parecia um cascalho acimentado. A estátua estava deitada numa cama, num sono leve e aprofundado. O quarto era pequeno, iluminado apenas pelo monitor que passava um filme mudo.



 "Só hoje eu li sua última carta, e faz exatamente um mês que eu a recebi. Sabia que ia chegar atrasado, mas vim mesmo assim. Aqui estou, e nem sei bem o que dizer, sei menos se o que vou dizer vai fazer alguma diferença, mas não ligo, preciso tentar...", parou por instantes, olhou para a palma de sua mão aberta, mexeu os dedos um pouco, os estalou, olhou-a novamente, reparou nas digitais, naquelas sinuosas e sutis cavidades que formavam um desenho caótico que era só dele. "Será? Será que só eu tenho as minhas digitais? Será que não haveria a possibilidade mínima de que uma outra pessoa no mundo tivesse as mesmas digitais que as minhas? Aposto que sim, aposto que essa pessoa está por aí e já deve ter se perguntado a mesma coisa, assim como eu e você..."

 Ainda olhando para suas mãos reparou mais nos detalhes. Uma pequena sujeira estre as unhas. O modo como uma parte dos fios de cabelo do seu braço pareciam formar um triangulo sem pontas. Depois esfregou os dedos e sentiu um pouco a oleosidade suja de sua mão... "Sabe como eu sei que isso tudo não é real?", fez uma pausa de segundos como se esperasse resposta, sorriu, e continuou "Os detalhes. Não exatamente o excesso deles, mas na vida real a gente nunca para pra reparar nos detalhes. Mesmo assim, pra nós dois, isso é totalmente real. E eu sei que isso vai ser totalmente real pra você ai do outro lado, como é pra mim aqui desse lado..."

 Levantou da cadeira, foi até a cama, sentou na beira, olhou pra ela. Aos olhos de qualquer outra pessoa, ela seria como uma garota qualquer, talvez bela, talvez feia e provavelmente rotulada. Aos olhos dele era uma mulher bela, madura, com uma pitada de inocência e talvez maldade, que escondia atrás do sorriso de pedra um milhão de mistérios que ele conhecia e outro milhão que ainda descobriria.

 "Vou direto ao assunto. Você está assim por que você escolheu. Eu não preciso falar isso, pois você já sabe. Também não preciso falar que você pode acabar com isso da mesma forma que você começou. Mas estou aqui pra tentar te ajudar a fazer isso, por que vi que você não tem conseguido fazer sozinha.", levou a mão até o rosto dela e... apertou as bochechas de pedra com toda a força que pode, dizendo com certa raiva "Consegue sentir isso? Claro que não! Como vai conseguir toda encouraçada desse jeito? Pare de se render aos medos. Pode não parecer, mas fiz um ou outro sacrifício para vir até aqui. Agora imagine, se esse nosso primeiro encontro fosse real e você ainda estivesse assim, como uma estátua. Como você iria me sentir? Como eu iria te sentir? E nem te conto os sacrifícios que eu vou ter que fazer e que quero fazer quando eu for até aí. Então, quebre essa casca. Não por mim... Mas por você. Você já nem consegue sair do lugar! Eu...!"

 E parou, respirou fundo antes que começasse a perder a calma. "Eu vou te ajudar o máximo que posso daqui. Como disse, é estranho, mas descobri que também criei uma casca, só que dentro e fora de mim... Eu me envolvi com uma mentira para enganar aos outros e a mim mesmo... São casos diferentes... Situações diferentes... Cascas diferentes... Apesar de motivos bem similares... Mas são cascas.", e respirou fundo de novo, dessa vez esvaziando todo seu pulmão. Seus olhos lacrimejaram.

 "Vou juntar o que resta das minhas forças e dá-las pra você. Eu preciso dormir mesmo, mas você precisa viver, então...", ele passou o dedo por dentro da pálpebra inferior sem encostar no globo ocular, juntando uma mísera gota em seu dedo. Levou o dedo até o busto da estátua, colocou a gota e ela foi absorvida instantaneamente, amolecendo a pedra no busto. Depois sussurrou com uma voz tristonha "Viva...". Se aproximou do busto da estátua e com um sorriso sereno deu um beijo onde havia colocado a gota, com um novo sussurro, agora cativante, disse: "Viva.". Levantou-se, cerrou os dedos preparando um punho na mão direita, colocando a mão esquerda sobre o busto mordeu o lábio inferior com força e raiva, gritando "VIVA!", em seguida dando um soco no busto abrindo uma rachadura não maior que uma falange. A lasca que saiu fincara em seu punho causando uma mínima ferida que mal sangrou. Ele pegou a lasca e a colocou na boca, mastigando e sorvendo aquele pedra amarga que no fundo era levemente doce. Aconchegou-se no busto da estátua e juntou as duas mãos em forma de concha, aproximou e soprou uma palavra: "Viva..." e a rachadura ficou um pouco mais profunda...

 Ele se ergueu, tonto, cansado. Esboçou um sorriso, começou a rir um pouco olhando a volta, depois olhos a estátua nos olhos, estendeu os braços horizontalmente aos ombros, virou as mãos para cima devagar, curvando de leve a cabeça e o joelho enquanto levava o pé direito para trás com sutileza. "Reviva... Renasça. Saia desse casulo e seja quem você realmente é e sempre quis ser... Sei que dentro de você ainda existe uma coelhinha curiosa e saltitante. Vou te esperar e quando você acordar, me acorde também...", sua voz era pesada, arrastada, cansada...

  Após o gesto, caiu de joelhos aos chãos e soltou um bocejo secular. Os olhos pesaram e os coçou como uma criança. Olhou para a janela trancada, fez cara de criança emburrada. "Mais uma coisa...", jogou o peso do corpo sobre a janela a abrindo com dificuldade e continuou "... deixa essa merda aberta!", falou querendo gritar. Escorregou o corpo sem forças pela parede e deitou no chão fechando os olhos.

 Quando estava quase adormecendo, ouviu um sutil "creck" e sorriu caindo no sono.

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