Gabunny

"Nota do Autor
Esse conto foi escrito para uma amiga em 31 de Março de 2014. Estou postando aqui apenas por que é um conto que eu amo e tudo que eu amo eu boto aqui. Também como homenagem para a minha coelhinha saltitante."

 Tristeza...

 Quantas pessoas no mundo existem? Quantas ão de existir? Quantas se foram? Tantas ansiosas para ir... De todas elas, quantas foram, são ou serão artistas? Quantas incontáveis criações poéticas (ou não), já não teriam sido extintas pelo mero desgosto de seu criador em certos momentos de sua vida?


 Tristeza é o único sentimento que pode resumir esse aborto massivo realizado todo dia por pessoas em todo mundo por julgaram que aquela obra... Obra não, aquela vida! Não era digna de vida. Gabunny é uma dessas vidas perdidas que esse tolo ousa tentar recobrar, curar, recuperar, restaurar... ressuscitar.

 A história começava assim, uma jovem que apesar de vivida, ainda tinha incontáveis dias de sua vida pela frente, andava pelas ruas desertas de sua cidade e se despedia. A despedida era alegre e tranquila, ela visitava locais de sua lembrança e dizia: "Adeus rua... Adeus banco... Adeus pracinha... Adeus gatinho fofo da vizinha...".

 Para onde ela ia ninguém sabia e seu criador também não havia definido se ela estava apenas de partida para uma grande aventura ou se partia de sua vida. Em certo ponto específico, sob certa constelação específica de frente à uma porta enumerada, mas cujos detalhes nunca tiveram exatidão definida pelo criador dessa vida a menina se deixava levar pelo momento, olhava para o céu e girava, girava, girava...

 Era uma antiga brincadeira de criança, gostava de girar o mais rápido possível até ver as estrelas no céu se tornarem circulares rabiscos embelezando aquela vista que ela já amava sem que fosse preciso fazer tudo isso.

 Mal sabia que aquela seria sua última "girada", pois logo depois de ficar tonta e cair no chão o céu estrelado não retornara em nada a ser como era. Recuperou-se da tontura e viu um céu de riscos estrelados em vez de estrelas rodeando uma lua cheia. No lugar de casas cabanas abandonadas sem sinal de vida alheia.

 "Acho que não estamos mais no Kansas, Totó!", disse ela ao nada e sua voz tinha um ar cômico de dó. Ela não sabia onde estava, mas sabia que não estava mais perto de casa. Levantou e seguiu rumo onde parecia haver iluminações mais ao norte, talvez lá ela poderia mudar sua sorte.

 Medo, ansiedade, satisfação? O que será que ela sentia até então? Seu criador nunca havia definido, mas havia esboçado qual seria a sensação. De acordo com ele, ela estaria estranhamente vívida, se sentindo numa casa que sempre fora sua, mas nem sabia que existia. Tudo parecia familiar ao mesmo tempo que não era. As folhas azul-marinhas das árvores que davam nós de tão retorcidas, os bichinhos redondos e vermelhos que fugiam sob duas patas e só se podiam ver seus olhos negros em meio aquele monte rubro de pelos ou os estranhos insetos que eram tão finos e tão longos quanto um fio de cabelo, que viviam nos nós das árvores para que o vento não os carregasse...

 Ainda muitos e muitos detalhes desse mundo ela viu, muitos deles perdidos na mente do criador que se recusou a criar esse mundo por não achá-lo "puro".

 A jovem seguiu com sua busca até chegar nas enormes grades de uma enorme cidade, toda murada. Os portões estavam fechados e por mais que ela gritasse, não adiantava de nada. Ninguém ousava aparecer, seja para lhe expulsar ou para lhe atender. Depois de sessões de gritos e já cansada eis que passos foram escutados, vagarosos e firmes com passadas indomadas.

 Uma senhora surgiu do outro lado do portão, com um ar firme e roupas de realeza esbravejou: "Bem vinda de volta, princesa!", ao qual a garota olhou curiosa e se perguntando por que aquela mulher lhe tratara daquela maneira. Após a senhora se curvar, a jovem lhe perguntou os por quês daquele mundo, pediu por clareza, e a senhora lhe explicou (como pôde) uma história que nunca tivera ouvido antes.

 A jovem era a herdeira daquele lugar, um mundo só seu, no qual ela deve governar, sem sua presença o reino estava escaço, os desertos do mundo avançavam e o solo antes frutífero agora se tornava árido. Ali ela não era uma espécie de deusa, mas um espírito da natureza e sua presença iria recuperar os danos causados por sua perda.

 "Mas por que eu estava lá e não cá?"; a jovem perguntara. E a senhora mais uma vez explicava. Sua inconstância não a mantinha quieta num único lugar, precisava se soltar. Fugira de seu mundo por se entediar de sua natureza, buscava outras fontes de beleza. A jovem não acreditara como teria abandonado um mundo tão belo e tão profundo, mas agora que estava não pretendia ir embora... Pelo menos por hora.

 "Antes de retomar seu trono você precisa passar por uma prova", disse a senhora, "deverá ir para o norte, até o Bosque Retorcido, trazer a vida que lá havia se perdido..."; Mas como? Onde? Por que? Não adiantava, a senhora já a ignorava e estava indo embora. A tarefa fora dada, não havia por que dizer mais nada...

 Não sabia como, mas sabia o caminho, seguiu onde sentiu o vento do norte soprar, sem medo do que ia encontrar. Horas se passaram até que pudesse ver ao longe a floresta de árvores secas que cobriam o horizonte, mais uma hora se passou até chegar nas primeiras árvores cujas copas eram tão altas que cobririam uma cidade. Agradeceu pela lua estar tão bem iluminada, sem ela ficaria desorientada... Se já não estava.

 Por horas e horas ela rondou o bosque... Ou teriam sido dias? Quem sabe? Outro dos detalhes que o criador dessas vidas já não mais sabe. Depois de tanto tempo, ela já sentia os efeitos da desnutrição, sentou recostada contra uma das árvore de farpas que eram quase tão afiadas quanto espinhos, já estava aceitando seu destino. Sua respiração pesava, seu corpo mal se movia e quando seus olhos estavam semi-cerrando, quase fechados ela viu alguma coisa branca e esguia...

 Era um coelho, mirrado, sujo, esquelético e se tremendo de medo. "A vida perdida?", pensou... Mas agora era tarde, não tinha forças, como voltar para a cidade se ainda tinha que pegar aquela coisa? Não conseguiria, desistiu antes de tentar. Como último gesto, fez o que podia para ajudar. Raspou seu dedo numa das ferpas, juntando suas últimas forças e estendeu para a criatura sussurrando: "Beba..."

 O roedor se aproximou com calma, sempre com o pé atrás, mas logo que alcançou o dedo não o largou mais. Sorveu cada gota com agilidade e num último devaneio pré-morte, ela viu o coelho se nutrir num instante, ficando cada vez mais gordo, crescendo cada vez mais rápido. Quanto mais crescia, mais sorvia, até depois começar a comê-la pedacinho à pedacinho, dedinho à dedinho, nervinho à nervinho... E a cada segundo o coelho parecia maior, mas ela sentia a dor cada vez menor...

 O coelho também parecia mudar de forma, aos poucos notou que ele tomava uma feição humana, até que antes de poder ver no que ele iria se transformar tudo escureceu por um instante. Então tudo novamente clareou e ela conseguiu enxergar com nitidez uma possa de sangue onde ela mesma deveria estar. Ela se tornara o coelho que outrora ajudara...

 Agora tudo fazia sentido. Ela era a vida perdida do Bosque Retorcido. Lá foi o último lugar que visitou antes de deixar seu mundo em busca de completar seu vazio... Mas agora estava de volta. Retomaria seu reino, reviveria seu ecossistema e tudo estaria bem... Até que fosse voltar a dar seus saltos de coelha fujona em busca de novas aventuras e problemas...

 E assim termina essa vida. Um fim sem fim. Como o criador, dessa e outras vidas, mais ama. Por que no fundo o fim de toda a história é apenas o princípio de outra. "Se é assim, por que todo princípio precisa de um fim?", é o que ele mais questiona...

 Até um próximo fim sem fim, caro leitor.

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