Encruzilhadas

 Ele estava exausto, fraco e debilitado. Desmontara seu irmão de suas costas ao chegar naquela divisão de caminhos entrelaçados. Para onde seguir agora? Ele não sabia mais, a dor era tão grande que não conseguia realizar ao menos uma escolha.

 Os caminhos eram muitos, mas dois se despontavam, um deles parecia levar a uma floresta cheia de incertezas promissoras, já o outro parecia uma continuação do antigo caminho com algumas flores, mas também espinhos.

 “Chega!”, disse um de seus irmãos. “Estamos fartos disso! Por quanto tempo mais acha que consegue nos carregar? Olhe para os seus pés! Todos feridos, e pra quê?! Pra procurar algo perdido que nunca mais vai se encontrar?”, ele se aproximou furioso, era o mais estourado dos irmãos.



 “Ele tem razão irmão, você precisa de cuidados e só os nossos não adiantam mais. Faremos o que podemos para ajudar, mas pra isso você precisa deixar...”, falou o irmão manipulador, que com um cigarro na boca deu um trago, soltou e abriu um sorriso falsamente verdadeiro. “Vamos, você precisa descansar.”

 “Eu não quero, vocês vão me levar onde não quero estar. Esse é o meu caminho, não preciso nem da minha visão para saber o que preciso.”, e ele apontou para o caminho de flores e espinhos. “Eu só estou um pouco cansado, mas sei que consigo. Consegui até hoje. Por que não mais um pouquinho?”

 O irritadiço ficou ainda mais irritado e se aproximou mais do irmão de pés ensanguentados. “Você precisa de senso nessa sua cabeça, e eu sei como colocar.”, segurou sua cabeça pelos cabelos e deu um soco sem pestanejar. O gosto enferrujado escorreu por sua boca. “Se é dor que quer sentir, não tem problema, nisso sou o melhor que há.”, o segundo soco foi na boca do estômago, forte como a estocada de uma máquina de prensar, fazendo até com que os pés feridos ficassem por um instante no ar. Preparou o próximo golpe segurando a cabeça curvada dele com as duas mãos e retraindo o joelho e riu, como se fosse algo que quisesse fazer a nos e nunca conseguiu...

 Uma mão pousou no ombro do irritadiço. Apesar de a mão não ter apertado segurando nem feito nada demais, seu peso era impossível de ser ignorado. O irritadiço parou, olhou pra trás e viu a cara tranquila e positiva do otimista. Ele rosnou. O otimista riu. “Pare, você sabe que está errado, não é assim que vamos cuidar do nosso irmão machucado.”, suas palavras eram serenas.

 “Eu odeio todos vocês, mas você é quem eu odeio mais que todos, irmão.”, soltou o dos pés feridos e se afastou dos outros, blasfemando sobre a vida. Se ajoelhou no chão e começou a socá-lo deixando esvair sua repressão.

 O otimista se aproximou do ensanguentado, abaixou, pôs ã mão em seu ombro, mas de uma maneira diferente de como fez com o irritado. Era leve como uma pluma. “Você não precisa ficar assim, ferido e agoniado. Você nos carregou sozinho por tanto tempo. Deixe-nos retribuir o favor, também podemos carregá-lo.”, e o ensanguentado baixou a cabeça. Realmente não tinha mais forças, não tinha mais jeito nem sabia o que fazer. Ainda conseguiu se arrastar um pouco na direção do caminho florido, mas não se moveu muitos centímetros.

 Após uma tragada e um suspiro, o manipulador se aproximou do irmão de pés feridos e em silêncio, o ergueu, colocou em suas costas e começou a carregá-lo em direção ao caminho das incertezas. “Vamos...”, disse para os outros irmãos que apenas observaram um pouco espantados e o seguiram calados. O ensaguentado continuou olhando para o caminho que realmente queria, chegou a esticar a mão tentando alcançá-lo, mas o manipulador a pegou e segurou com tranquilidade.

 “Eu sei, você quer trilhar aquele caminho, mas por enquanto esse é o caminho que você precisa. Eu sei que você não se importa em ferir ainda mais os seus pés por aquele caminho, mas você precisa entender que chega um ponto que seus pés precisam se recuperar para que eles possam ser novamente feridos. Aquele caminho tem tido cada vez menos flores que espinhos, sabe disso. Descanse, relaxe, durma. Deixe que nós guiemos um pouco você pelos caminhos e depois, se quiser, siga o caminho que bem entender. E eu também sei que você está com medo de se perder, afinal, são tantos caminhos, cada um mais maravilhoso que o outro. Mas se você se perder, talvez aquele caminho não era o que você deveria ter sido seguido, talvez nem ele quisesse que você o seguisse... Por isso, durma tranquilo.”, ele sempre foi assim, sempre preferiu manipular as pessoas com verdades do que com mentiras. Verdades são mais convincentes, mesmo aquelas na qual ele não acreditava.

 O irmão de pés feridos não dormiu, não cochilou, nem pestanejou, mas começou a relaxar aos poucos, a se sentir mais leve, menos doloroso. Havia esquecido que apesar de tortos e estranhos, poderia confiar neles, já que eram seus irmãos. Não sabia se conseguiria dormir uma hora ou outra, mas sabia que apesar daquele não ser o caminho que queria... era um caminho bom. Na verdade, era melhor que os caminhos que até agora seguira.

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