A Folga do Bibliotecário

Aviso, ainda não reli para consertar erros nesse texto. Obrigado pela atenção.

 Todos os dias o bibliotecário checava a biblioteca, mesmo que só por alto. Analisava a estrutura, verificava se não deixara nenhuma porta aberta, abria um pouco as janelas... Mas até mesmo um bibliotecário precisa de férias.

 A biblioteca estava vazia, os ajudantes foram dispensados, as alas todas devidamente trancadas, as janelas estavam até barricadas, afinal, aquela não era uma biblioteca qualquer... Mas nenhuma tranca, fechadura ou barricada importava para ele, pois ele conhecia passagens secretas.


 Era apenas um ajudante qualquer, ou era o que queria que todos os outros pensassem, quando na verdade ele era a sombra por trás do bibliotecário. Sempre aproveitava os momentos de abandono da biblioteca para se infiltrar e reorganizar tudo como pudera.

 Logo na primeira ala pegou todos os livros dos quais tinha saudade, capas multicoloridas, vermelhas, verdes, azuis, algumas até sem cor nem vida, empilhou-as no colo e seguiu para a próxima ala.

 A próxima ala não era aquela que ele esperava, as alas estavam sem placas, pareciam ter sido arrancadas... Por que? A ala era familiar e estranha, silenciosa, soturna e um tanto vazia. As estantes eram poucas. Algumas pareciam estar quebradas, mesmo assim organizadas, limpas. Alguns livros estavam pendurados como candelabros, acorrentados, cortados, amassados.

 Ele nem tentou identificar qual era aquela ala, apenas pegou os livros que precisava, alguns quase destruídos por completo, outros intactos, mas de conteúdo agressivo e cheio de impropérios. Alguns dos livros que ele tinha pego na ala anterior distribuiu por aquelas estantes preenchendo alguns espaços vazios, outros, continuou a carregar consigo. Passou para a próxima ala, mais uma vez, sem placas.

 Logo ao entrar na ala sentiu um cheiro de maresia saudosista invadir suas narinas, suspirou e todos os seus músculos relaxaram, seu coração palpitou ficando ao mesmo tempo acelerado e desacelerado. Os livros eram vários, incontáveis. Alguns ainda abertos, esperando que seu conteúdo fosse terminado, outros terminados mesmo sem ter um fim, alguns se reabriam sozinhos enquanto ele passava como se pedissem uma continuidade. Passou os dedos pelas estantes enquanto caminhava e cada toque em cada livro lhe davam uma nova sensação prazerosa.

 No centro da ala havia uma mesa pequena com uma cadeira, um lápis e um livro com capa e páginas sujas em sangue. Ao ver aquele livro jogou todos os outros no chão. Agarrou o livro com força, o abraçou, beijou, mordeu, lambeu. Arrancou uma de suas folhas, a mastigou com vontade e a comeu. Depois bateu, jogou o livro no chão, o arrastou com os pés e depois o pegou novamente, arremessou contra as paredes e contra o teto. Enquanto fazia tudo isso às vezes chorava, às vezes ria, as vezes apenas suspirava. Começou a arrancar páginas e mais páginas, guardando-as nos bolsos e enchendo as mãos.

 Voltou correndo para as outras alas e escondeu algumas das páginas dentro, entre e por trás dos outros livros que encontrara, fez tudo minuciosamente, de modo que só percebessem as páginas escondidas quando fosse tarde demais. Retomou seu rumo para a ala perfumada, pegou os livros que antes carregara e os que lhe interessara ali. Colocou ali mais alguns dos livros que havia pego nas outras alas, escondera mais algumas páginas arrancadas e seguiu seu caminho.

 Ao abrir a porta da ala seguinte, sentiu suas forças se revitalizarem. Quem diria que um mero livro poderia se multiplicar em tantos livros? Mas ele já sabia que isso aconteceria. Não apenas se multiplicar, mas ressuscitar uma ala inteira antigamente assassinada por ela mesma... As estantes ainda estavam vazias e mais estantes ainda seriam trazidas para mais livros que ainda seriam elaborados, copiados, realocados e multiplicados. E ele já se adiantava nisso em seu eterno trabalho noturno e obscuro de trocar livros e mais livros por entre as alas e esconder mais das páginas arrancadas.

 Na ala seguinte ele se sentiu em casa, as estantes eram tortas, quebradas, rabiscadas, endireitadas, grandes, pequenas, desmontadas, multifacetadas, colorificadas e os livros eram belos, sujos, rasgados, tortos, folhas espalhadas pelo chão, ao vento, capas sem folha alguma penduradas ou ao relento... E ele começou a dançar, espalhando mais livros pelo lugar e mais das folhas rasgadas. Consertando ou remontando algumas estantes e livros, tacando fogo em outro(a)s.

 Depois sem nada em mãos, seguiu para a última ala. Ao abrir a porta, um forte vento bateu espalhando mais a bagunça da ala anterior. Ele entrou, suspirou e sussurrou “Irmão...”, sorriu e se sentiu em paz. A ala era vazia. Não tinha nada, nem estantes, nem livros, nem poeira, parecia recém-inaugurada, mas ele sabia que era a mais velha de todas as alas.

 “Algo está errado, algo está faltando, você não me engana seu malandro.” - ele sussurrou e sorriu diferente, meio sádico, meio inconsequente. Tentou avançar, sabia que havia algo escondido ali, mas conforme avançava para averiguar o vento se tornava mais e mais forte, em certo ponto nem conseguia mais andar e estava sendo jogado para trás. As janelas batiam sem parar. Então ele desistiu, uma gotícula de razão o invadiu e ele entendeu.

 “Então você é o novo guardião da ala da perdição? Foi uma sabia decisão tomada, já que eu apenas me deixaria invadir por aquilo preso dentro dela! Haha!” - gritou ele para o nada. E o vento amenizou.

 Ele então se voltou para a porta e falou “Até mais, irmão!” e foi embora, passando novamente por todas as alas pegando mais livros, trocando mais coisas, arrancando mais páginas do livro ensanguentado... Ao sair da biblioteca estava contente, cumprira sua missão com rapidez e ainda poderia visitá-la novamente antes que o bibliotecário regressasse. Não que acreditasse que precisaria voltar tão cedo para reorganizar aquele caos inteiro. A biblioteca nunca esteve sob melhor proteção.

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