Sarcasmo Divino (reescrito)

 “Acabou por que... tinha que acabar...”, foram as últimas palavras que ela dissera após terminar de tentar se explicar. Palavras essas que para ele não respondiam nada, apenas confirmavam coisas que já suspeitava. Nada acaba por acabar, apenas a vida acaba sem uma razão definida.

 A frase ecoava em sua mente enquanto a água quente escaldava suas costas. Suas lágrimas rolavam constantes num choro silencioso e deprimente. “Tinha que ser poucos dias depois de nosso aniversário de namoro? Logo depois daquele presente?”, retrucou em sua cabeça. O presente não tinha grande valor, mas uma pesada carga sentimental. Um par de alianças, seguidas de um pedido matrimonial...

  As lágrimas intensificaram. Como não? Mesmo prevendo o que estava por vir não tinha como não ficar abalado. Já fazia algum tempo que o olhar dela mudara, seu toque se tornara distante, sempre parecia estar em mais de um lugar no mesmo instante. Sempre que ela parecia perdida em pensamentos ele perguntava “No que você tá pensando?”; “Em nada!”, ela respondia esboçando um sincero sorriso mentiroso.

 
  Socou a parede do banheiro. Antiga mania onde sua frustração se convertia numa raiva tamanha que só a continha com socos em paredes alheias. Uma de suas maneiras de amenizar suas dores emocionais com dor física. Mesmo assim não tinha raiva dela, odiava apenas a si mesmo, seu amor por ela continuava inteiro.

 
  O banho quente era sua terapia. Sempre que mais precisava era pra baixo do chuveiro que corria. Apenas deixava a água escorrer pelo corpo e poderia ficar ali por horas, não se importando se alguém se incomodasse com a demora. Desgastado, sentou no chão do banheiro, fechando os olhos e deixando a água escorrer por seu rosto e cabelos.

 
  Abriu seus olhos novamente, olhou em volta a esmo, esbarrou seu olhar no barbeador de seu pai que estava na pia com alguns estilhaços de cabelo. Era um barbeador antigo, daqueles que usam lâminas destacáveis e devem ser manuseados com cuidado assíduo. Pensou em seguir o pior caminho, pegar a lâmina e dar um fim ao seu sofrimento. Estava se levantando para pegar o barbeador quando o celular tocou...

 
  “Não pode ser...”, pensou. Deixou seu celular tocar mais cinco vezes enquanto cogitava ínfimas possibilidades improváveis do acaso sorrir para ele. Despertou parcialmente para atender antes que desligassem e para sua surpresa ele ouviu um “Oi.”, com aquela voz suave que jamais esqueceria seguido de um “Sou eu.”, que ele nem precisava para confirmar quem estava do outro lado da linha.


 Era inútil negar a fagulha que acendia em seu peito, tanto do sentimento que ainda estava bem vivo, como de uma crescente esperança de que tudo aquilo tenha sido apenas um término passageiro. “Esqueci algumas coisas por aí. Vou incomodar se passar pra pegar? Vou entender se você negar...”. A fagulha se extinguiu por inteira, se tornou uma brisa fresca que o preenchia em grande velocidade. “Tanto faz, pode vir.”, disse ele num tom seco, desligando em seguida sem se despedir.

 
  Ao olhar mais uma vez para a lâmina, ele a pega... e guarda no armário. Não vale a pena jogar a vida fora por alguém que nem ao menos se importa. Ainda tinha esperanças, não a de um amor impossível, mas sim de continuar sua vida e superar aquela situação ridícula. Continuar sobrevivendo à esses sarcasmos da vida. Por que a vida é nada mais que uma série de sarcasmos, como sua namorada te trair com seu melhor amigo, ou seu pai morrer engasgado após ter sido operado de câncer do qual era impossível ter sobrevivido. Ou até mesmo seu ex-namorado se matar por não conseguir entender que você não o quer mais na sua vida...


  Tudo que podemos fazer é superar e continuar a seguir. E, claro, rir. Afinal, se nossas vidas são assim tão regidas por tantos sarcasmos, que mal há de dar ao menos alguns gargalhadas ao acaso?



Palavras do Autor

 Essa é a versão reescrita do conto da postagem anterior. Relendo e reescrevendo ele reparei que ele é meio que uma personificação dos meus relacionamentos virtuais... Que fútil hein? haha

Como já disse antes, sempre odiei ele. Gostei mais dele depois de reescrito. :)

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