Criatura (reescrito)

Era uma vez um jovem...

  ...um daqueles revoltados com a vida, talvez pela falta de uma criação adequada, talvez por mera rebeldia gratuita. No dia em questão, ele estava sentado no sofá de sua casa, pensando no quanto se odiava. Nascer, aprender, estudar, crescer, sentir, se envolver, se formar, trabalhar, viver, sobreviver, lutar, falhar, conseguir, perder, sofrer, chorar, se arrepender, compreender, aceitar e (finalmente) morrer... Não necessariamente nessa ordem.
 Seu desânimo era crescente. Com a vida, com as pessoas, com o mundo, até mesmo com a morte. “Pelo menos a morte é uma saída”; sua cabeça retrucava e ele concordava...

  Sabia que ninguém poderia lhe ajudar, não havia solução para o que já estava solucionado. Tudo que poderia fazer era tentar fugir para longe, bem longe, tão longe que ninguém mais poderia alcançá-lo. Nem a vida.

  Ao seu lado um pote de remédios sem rótulo e um copo úmido, jaziam abandonados. Ambos vazios. Não demorou a sentir os primeiros efeitos que cogitara, mas não tinha certeza se alguns deles eram o esperado. Um embrulho crescente no estômago queria lhe subir a garganta, estava um pouco zonzo, vista embaçada. Começava a questionar se havia feito a coisa errada.

- Não devia demorar tanto...; sussurrou. Chegou a pensar em ligar para a emergência, mas ouviu sua mente barulhenta tentar lhe acalmar: “Já vai passar... Tenha paciência.”; resolveu esperar.

  Quanto mais o tempo seguia mais zonzo se sentia e mais o quarto escurecia... Achou que talvez estivesse nublando ou entardecendo, mas enquanto cogitava um provável motivo percebeu que conforme a penumbra se intensificava, mais seu desânimo crescia. Ou talvez fosse o contrário...

  Fechou os olhos e focou. Aos poucos a dor não se tornava mais dor, a angústia diminuia, sua desmotivação ficava sem motivo... Todos seus sentimentos se tornavam nada. Isso era bom? Deveria... Mas até suas lembranças desapareciam, tal como sua vontade e suas forças. Aos poucos ele mesmo estava se tornando nada... “Melhor ser nada do que ser algo nesse mundo de hipocrisias.”

 Ouviu. Abriu os olhos no mesmo instante. Não tinha certeza se a voz vinha da sua cabeça ou de alguma entidade distante. Levantou-se rápido enquanto se recobrava do mal estar e com um pulo já estava no corredor. Via agora nitidamente algo que lhe deu leves princípios de pavor... Cobrindo parte da sala, parecia haver uma neblina ou névoa escura. Nas bordas parecia tão suave quanto fumaça de cigarro, já no centro era de uma densidade mais intensa que um nevoeiro pesado. Ela constantemente mudava sua forma e parecia se mover, se arrastar numa lentidão de brisa de verão... Pior, se movia em sua direção.

  Espantado, afastou alguns passos por precaução, mas algo o fez parar. Uma descrença ainda morava em sua mente e o impedia de assimilar aquela “coisa” ao seu mal estar recente. “Deve ser fumaça de algum carro que entrou pela janela...”, raciocinou, ou será que não? Seus pensamentos se confundiam entre razão e emoção...

  Quanto mais a sombra viva se aproximava, uma estranha amargura lhe abatia, um gosto metálico e frio preenchia sua boca, sua pele arrepiava levemente num quase imperceptível calafrio, leves alfinetadas invisíveis fisgavam seu peito numa dor que se tornava cuidadosamente constante e intensa...

  Não esperou sua cabeça retrucar e correu para seu quarto, seu ponto seguro. Poderia tentar sair de casa, mas a nuvem negra bloqueava o caminho e não sabia o que aconteceria se passasse diretamente por... “aquilo”. Trancou a porta e a encarou ofegante, mais por ansiedade do que por necessidade...

  “Não vai adiantar...”; era verdade, aquilo não seria suficiente. Fuçou todo seu quarto tentando encontrar qualquer coisa que lhe ajudasse. Achou um rolo de fita adesiva e vedou o quanto pode todas as frestas que a porta possuía... Várias vezes. Colocou fita até mesmo no buraco da fechadura, mesmo sentindo que aquilo não lhe daria proteção alguma.

  Estava cansado, mas era impossível sentar, a ansiedade o imobilizara ali de pé em frente à porta, esperando acontecer o que sabia que não conseguiria evitar. Depois de poucos minutos percebeu uma sutil fumaça que passava por entre os mínimos espaços deixados pela fita, a fumaça fazia o mesmo som do vento ao passar por frestas de portas em dias de ventania.

  Encurralado e sem esperanças, finalmente sentou na cama recostado contra a parede, olhando para a porta como se nada mais importasse, apenas aquele momento que ele sentia que decidiria sua vida. Dobrou as pernas e as abraçou como um feto encolhido e desprotegido. Não havia saídas. À medida que a fumaça invadia o quarto ela parecia se recompor vagarosa naquela estranha e obscura neblina...

  Demorou um pouco até sentir de novo todo aquele abismo de sentimentos destrutivos, à princípio sutil como uma alfinetada quase indolor, mas que aumentava conforme a fumaça se espalhava e se intensificava. Todas as piores emoções das piores lembranças de sua vida eram trazidas à tona, todos seus sentimentos se desfaziam como o desfio de um tecido, tudo que lhe restava era a certeza de que viver não valia a pena para suportar tanto. Nem mesmo os momentos bons e felizes que teve ou os que sabia que poderia ter não compensavam tamanho sofrimento...

  Em seus últimos desejos de sobrevivência tentou pensar em algum modo de fugir, mas não adiantava, seu corpo não respondia. Tudo que podia fazer era esperar, por mais que quisesse sair dali. “Agora eu entendi... Agora sei o que tá acontecendo... Essa fumaça é um demônio que veio me castigar pela vida inútil que tenho...”; começou a sussurrar para si... “Eu sinto você me possuir aos poucos. Sinto sua fumaça... sua essência... invadindo minha alma pelos poros do meu corpo.”; na verdade parecia mais que seu próprio corpo estava absorvendo cada milímetro da fumaça enquanto o volume da própria névoa diminuía.

  Conforme falava sua voz agravava aos poucos e, faltando apenas alguns leves fios de fumaça que eram sugados por sua boca, sua aparência já não era mais a mesma. Enormes olheiras rodeavam seus olhos que derramavam constantes lágrimas, sua pele ressecou como madeira e seus olhos... vazios, vagos, rachados.

  Seu corpo, recostado contra a parede, deslizou vagaroso até ir de encontro ao chão e já nos seus últimos suspiros o jovem fez uma última pergunta: - Qual o seu nome, criatura?

 A resposta veio de sua própria boca: - Depressão... 


Palavras do Autor

 Esse foi o primeiro dos meus contor reescritos. Confira o conto original aqui. Ainda tenho que reescrever muitos outros. Apesar de ter reescrito esse ano passado, desanimei na hora de fazer os outros, mas estrou tentando voltar. :)

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