Biblioteca do Caos

  Fazia muito tempo que ele não entrava em sua biblioteca, mas ele estava procurando um resumo mais ou menos detalhado para entregar à sua amiga e não existia lugar melhor do que lá para criar tal resumo.

  Logo na porta de entrada uma pequena placa acima da porta continha seu nome completo. Esboçou um sorriso, tirou a chave do bolso, encaixou-a e se surpreendeu quando percebeu que esqueceu a porta destrancada depois da última visita. Abriu a porta, entrando sem pegar a chave de volta. Na primeira ala, várias estantes contendo vários livros com nomes de parentes amigos e conhecidos como títulos.
 
  Uma estante especial se destacava com uma placa em sua lateral: Biografia Incompleta. Ao folhear os livros via detalhes sobre nascimento, dias importantes como primeiro beijo e primeira transa, mas também dias fúteis, como a primeira vez que comeu brigadeiro ou o primeiro tombo (quem lembra do primeiro tombo?).

 Logo ao lado uma outra estante importante com o nome de “Árvore Psico-Genealógica”. Onde os livros apenas relatavam com detalhes específicos, não apenas familiares, mas qualquer pessoa que ele tomava como família, qualquer pessoa que realmente devesse ser mencionada na história de sua vida. Cada livro possuía o nome da respectiva pessoa de quem falava, alguns possuíam mais de quinhentas páginas.

 A próxima estante não tinha espaços vazios, estava repleta de livros sem nome. O nome dela era “Futuro” e todos seus livros estavam em brancos. Aquilo era ao mesmo tempo uma piada interna e um lembrete.

 A seguinte tinha na placa o nome “Inesquecível”, onde as memórias mais importantes estavam arquivadas da forma mais intrínseca, como quando voltava da escola e o caminho estava cercado de pequenas flores amarelas caídas das árvores o que, junto com a luz alaranjada do entardecer fez daquele um momento especial, ou mesmo quando viram na capa do caderno da escola o coração com o nome da garota turma que era afim (apagado, mas ainda marcado) e todos riram...

 Foi apressado para a próxima estante não querendo mais ler sobre momentos vergonhosos. “Ideias” era o nome dela. Vários cadernos de anotações com incontáveis ideias variadas, algumas mais loucas que as outras. Ideias para livros, contos, poesias, músicas, jogos, filmes, desenhos, pinturas e até seriados. Essa estante possui muitos livros rabiscados, rasurados ou rasgados... A maioria queimado, ao tocar ele ainda podia sentir um pouco do calor.

 Outras estantes “menores” em categoria estão presentes, mas não chamam a atenção. Ele continua andando e chega até o final dessa ala onde atravessa uma porta para a próxima ala. No topo da porta uma palavra: Vento.

 Logo ao entrar, um vento forte bate e o envolve, ele fecha os olhos e suspira aliviado. Se sente em casa. Todas as janelas dessa ala estão abertas, o ar é fresco e o vento é frequente, às vezes como brisa, às vezes levando páginas de livros abertos embora.

 Todas as estantes possuem livros variados dispersos sem coesão, ou com em branco, ou com letras turvas, ou em línguas desconhecidas, ou com escrita de trás pra frente, ou com letras parecendo pertencer à outras civilizações, tudo escrito à mão. Às vezes ele consegue ler até o que não está escrito em sua língua, às vezes não consegue ler nem o que parece ter sido escrito por ele mesmo. O pouco que pode ser lido lembram palavras de sabedoria incompleta.

 A maioria dos livros estão abertos, com as paginas virando de um lado para o outro conforme a dança do vento. Apesar da ala parecer ser uma bagunça, com alguns segundos de atenção e silêncio, parece haver algum sentido naquele caos.

 Algo o diz pra ficar, algo o diz pra aproveitar, algo o diz que aquele é seu lugar, mas ele não está ali pra isso agora. Precisa continuar. Segue para a próxima ala cujo nome é “Ódio Contido”.

 Estantes destruídas, com livros destroçados, rasgados, alguns até aparentemente comidos (ainda babados), vociferações de ódio contra tudo e todos, principalmente contra a “raça humana”. Chega a pegar alguns dos livros e folhear com calma, ler com atenção, entender e sentir o por que de tanta aflição.

 Um de seus punhos se fecha sem perceber, ao terminar de ler um parágrafo sente uma dor peculiar na mão, e quando vê algumas farpas entraram na frente do punho e uma estante quebrada ao seu lado mostrava leves indícios de que havia sido socada. Largou o livro e continuou na próxima ala.

 “Coração Comido” é o suposto nome da ala. Ao entrar, tudo é um pouco saudosista, um perfume de maresia até agradável, mas que aos poucos vai se tornando enjoativa.

 Nas estantes, livros variados de romance. Todos com fim trágico, ainda assim com história cativante. Apesar de sempre repetitivos pela temática, cativam o leitor, mesmo sabendo que o fim será sempre uma tragédia. O título de cada livro é um nome feminino como Mayara, Débora, Bianca, Verônica (existem três desses), Luana...

 Cada um com sua própria cor, alguns não passando de meras páginas, outros uma folha ou outra pregada (ainda com carinho) na lateral de uma estante, com o desenho de um coração ou de um sorriso. Curiosamente, alguns dos títulos dos livros aqui também eram alguns títulos na estante da "Árvore Psico-Genealógica" da primeira ala. Ele sorriu perante isso, um sorriso com olhar sincero e puro, diferente do olhar que dava a outros livros.

 Cartas, também há cartas. Algumas até perfumadas, com letras femininas, umas delicadas outras atrapalhadas. Adesivos, promessas, juras, erotismo...

 Uma gorfada sobe sua garganta, mas ele a contém. O gosto amargo o trás à realidade e ele continua a explorar sua biblioteca. A próxima ala não tem nome.

 Ao entrar um cheiro de umidade e mofo, um ar de abandono supremo. O nome da ala provavelmente se perdeu há muito tempo. As estantes quase vazias, alguns poucos livros jogados, abertos ou entre abertos, falando sobre bondade, mas de uma forma chata e nada convincente.

 Ele apenas passa por ela como se passasse por um corredor, sem nem reparar em detalhes. Em um momento, o visitante passa o indicador por cima de uma das estantes e olha para o dedo acumulado de poeira. A única coisa marcante é que pela janela o clima é diferente: noite chuvosa com lampejos ao som de trovões.

 Na placa da porta pra próxima ala está escrito em maiúsculas “ARCANO ZERO”, com o desenho de um chapéu de bobo da corte torto em cima do “A”. Ele abre, contente por entrar na ala que ele mais gosta.

 As estantes são variadas misturando características de todas as outras alas, destruídas, pintadas, organizadas, tortas, derrubadas, e os livros da mesma forma, rasgados, rabiscados, inteiros, belos, chatos, engraçados... Ele se sente feliz ao entrar ali, não apenas feliz, mas alegre e contente, não uma alegria comum, mas uma alegria contagiante da qual não consegue tirar o sorriso de sua face.

 No final da ala uma estante de madeira podre e cheia de farpas. Não sabe por que, mas ele sabe que tem algo atrás daquela estante, algo o diz para não tentar olhar, mas... Curioso como todo bom ser humano ele ousa arrastá-la, toma cuidado com as farpas, mas não adianta suas mãos ficam cheias delas... Faz muito esforço para conseguir arrastar a estante, pois físico não é seu forte. Atrás da estante, uma porta, e na porta as palavras: “última ala, sem retorno, favor não entrar”.

 Embaixo do nome da ala um papel pregado por uma tacha, escrito à mão várias vezes uma única palavra: “esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça esqueça”; as palavras se tornam cada vez mais tortas a cada linha que se segue, até a penúltima linha ser ilegível e a última sendo formada de um emaranhado de traços.

 Mas ele não sabia o que havia atrás da ala, ele não lembrava exatamente por haver esquecido. O papel mandava ele esquecer, mas para esquecer ele precisava lembrar...

 Levou a mão até a maçaneta, quando se deu conta estava rindo e não sabia por que “É o tolo do arcano zero, estou na ala dele, o bobo da corte, quando sou o tolo eu rio quando não tenho que rir...”, mas um calafrio lhe percorre a espinha... algo está errado, ou certo. Já estava girando a maçaneta e nem estava sentindo mais, parecia uma espécie de ritual... Também não percebeu que uma lágrima percorria sua face, mas ainda estava sorrindo.

 Abriu a porta. Havia um espelho atrás dela. Ele se viu, sorrindo e chorando, farpas na mão, descabelado, ainda segurava a maçaneta só que com cada vez mais força. Enxergou a ironia, o ódio, a alegria, o falso amor, os vestígios de uma quase bondade... No fundo do reflexo não haviam alas, nem estantes, apenas um livro. Verde. Um nome, não conseguia ler, o livro estava longe. Virou as costas para o espelho e o livro estava lá, num pedestal à sua frente em meio ao nada.

  Não havia mais biblioteca, nem estantes ou alas, apenas ele e o livro. O nome na capa estava rasgado à faca. A maçaneta ainda estava na sua mão, sem porta. Ele riu. E riu, riu, riu, riu, gargalhou incontrolavelmente pelo que pareceu uma eternidade e perdeu as forças se ajoelhando num chão feito de nada. Sua mão tremia e ele não conseguia fazê-la parar. Respirava forte para não começar a rir de novo. Queria matar alguém, deve ser divertido, cortar em pedacinhos, ver o sangue escorrer, tão bonito, vermelho, quente, forte... Mas estava sozinho. Queria cantar e quase se levantou para começar a dançar também, mas o livro estava lá. Precisava ler o livro. Ele estava já na sua mão... Quando o tinha pego? O livro tremia com sua mão. Tinha um fecho, coisa de livro antigo. Cheirou o livro, tinha cheiro adocicado de comida estragada, mas gostava, não sabia por que.

 Começou a socar o chão com a mão ainda segurando a maçaneta. Precisava parar, precisava... esquecer! Mas como? Como esquecer? Como destruir quem você realmente é? "COMO?" Gritou... sentiu uma brisa passar e conseguiu respirar um pouco. Levantou-se e viu o espelho, não gostou do que viu, ficou com ódio de si mesmo. Arremessou o livro contra o espelho o quebrando. Os estilhaços voaram longe e continuaram voando, voando e voando... Quando reparou estava caindo junto com os estilhaços. Fechou os olhos, sorriu e deixou o vento da queda lhe envolver.

 BUM! Era o que ele esperava, mas de repente apenas sentiu o vento parar. Abriu os olhos e estava na biblioteca de novo, caído no chão. Estilhaços de vidro ao seu lado. Em cada estilhaço viu rostos que não eram o seu, todos rindo. Quando percebeu estava rindo e não sabia por que. Parou de rir e balançou a cabeça. Nos estilhaços ninguém ria mais. Um bobo da corte fazia malabares, um relaxado fumava um cigarro olhando para o nada e escrevendo cartas de amor, outro mal-humorado socava uma parede e resmungava sobre a sociedade, outros ele já não via mais... e seu próprio rosto que ele mesmo ignorava.

 Por um instante se lembrou por que a ala do bobo da corte era a “última” e a que “guardava” a ala secreta, por que ele era uma mistura de todos sem ser todos, mas com uma pitada de algo que não conseguia definir o que era. Ele era seu ponto seguro, o que o ajudava a manter a última ala trancada e silenciosa. Parte de quem quer que estivesse na última ala também estava no tolo, assim ele poderia ser o que ele não queria ser e o que ele queria ser ao mesmo tempo que não seria e conseguiria conter tudo o que ele era e não era...

 Levantou-se, olhou em sua volta na ala do tolo e viu uma estante de madeira velha, podre e retorcida. Sabia que tinha algo atrás dela, não sabia o que, mas também sabia que não deveria procurar olhar, sabia que faria mal pra ele. O resto, havia esquecido...

 Atravessou todas as alas sem olhar para trás, nem para os lados, sem nem folhear livros ou procurar estantes. Apenas saiu da biblioteca pensando em não voltar por um bom tempo e, dessa vez, lembrou de trancar a porta...

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