Juvia

  A pequena chama azul tremeluzia e estalava enquanto sorvia o pouco que havia daqueles tortos galhos rubros para alimentá-la. A cada segundo ela diminuía mais, fraquejava e estremecia sob o vento frio, então sorvia mais do que restava da madeira seca e sangrenta para viver segundos mais.

  A menina colocava sua mão na chama sem medo e essa não a queimava, na verdade apenas a aquecia, parecia até a acariciar e a menina sorria em gratidão ao afeto, mas em troca a chama diminuía um pouco mais. Encolhida no frio de uma noite que nunca acabava ela tremia em seu pequeno vestido branco que possuía alguns respingos de um vermelho estranho. Com fome ela pegava um dos cogumelos que eram tão rubros quando as árvores da onde ela os retirara. Os levava a boca já com uma expressão de nojo em face, mastigava apenas para facilitar a digestão por que eram bem rígidos e seu gosto era como de ferrugem. Ao engolir um alívio lhe percorria por terminar a tortura da mastigação e ainda continuava mordendo a própria língua tentando tirar o gosto ruim da boca.

  Ao olhar novamente para a fogueira quimérica percebeu que a chama agora se prendia apenas a um único graveto, parecia estar até com medo de cair e o graveto lembraria um fósforo se a menina soubesse o que é um. Ela se levantou e foi até uma árvore próxima, pegou um dos galhos com vastas folhas rubras, mas quando foi dá-lo para o fogo, o deu com certo medo, tomando distancia. Ao colocá-lo lá correu até a árvore de onde o havia removido e ficou atrás dela observando.

 A chama aos poucos devorava sua presa e tornava-se novamente um fogo forte, mas não apenas isso. Sua cor azul e tranqüila se tornava um vermelho intenso e selvagem, mas os olhos da menina não se preocupavam com o fogo e sim com a fumaça rubra que saia das folhas queimadas. Uma leve agitação ocorreu nas árvores daquela clareira, zumbidos podiam ser ouvidos saindo das árvores e se afastando. A luz da chama revelava os vultos insectóides e três desses acabaram por cair perto do fogo. Eram verde azulados, possuindo três pares de asas e o que parecia ser um grande ferrão, eles se retorciam em meio à fumaça que ainda os envolvia e morriam agonizantes...

  Depois que as folhas estavam quase completamente queimadas e a fumaça não exalava mais o gosto da morte ela se aproximou e pegou um dos galhos com um pouco do fogo violento. Coletou os insetos e os colocou perto do fogo para que nenhum animal os pegasse. Com  a pequena tocha em mãos saiu pela floresta e depois de pouco mais de dez metros de uma caminhada suave de pés desnudos chegou à beira de um riacho de águas leitosas.

 Ainda segurando a tocha à favor do vento para não ficar contra a fumaça nociva do fogo rubro, com sua mão livre pegou em leves conchas alguns goles d’água que pudesse sorver com tranquilidade. Em meio à um destes goles reparou em seu reflexo distorcido, talvez pela natureza mística da água, ou do fogo, ou da floresta carmim, ou talvez ela não queria acreditar que aquele apenas fosse seu verdadeiro reflexo...

 A figura distorcida de uma garota que parecia ter perdido tudo que podia ter de jovial e esbelto em si. Pele e ossos, medo e tristeza, fome e sede, agonia e solidão. Tudo resumido num único reflexo. Mal sentiu a água escorrer por entre seus dedos, mas não importava, já havia perdido a sede da mesma forma que havia perdido a esperança e agora perdia aos poucos a sanidade.

  A chama aos poucos se tornava índigo. Precisava voltar para a fogueira. A chama azul só espantava as criaturas caso fosse uma fogueira grande. Como chama de tocha apenas atraia visitas indesejadas. Ela estava cansada de sobreviver. Todos os príncipes encantados haviam sido devorados, as fadas madrinhas se tornaram bruxas meretrizes e as estrelas cadentes apenas foram embora...

  De volta à fogueira, sorria o sorriso mais triste possível ao encarar a chama novamente azul que tanto a protegera. Estava cansada e o fogo estalava lamúrias como se soubesse o que a menina pensava. Então ela parou de pensar e simplesmente fez. Jogou-se em meio à fogueira enquanto a chama azul ainda era forte. O fogo apenas seguiu sua natureza selvagem e sem controle, devorou o quanto pode dela e ainda em seus últimos momentos conseguiu dar um pouco de sua vida para a alma daquela triste e dócil menina.

 A chama azul morrera, porém uma forte labareda roxa surgiu de onde havia sido consumido o corpo da menina. Chamas púrpuras se espalharam por entre folhas e árvores, animais incompreensíveis e insetos medonhos fugiam para fora do incêndio. Em poucas horas, a floresta rubra se tornara púrpura junto com uma nobre chama azul e uma humilde menina incompreendida.

 Restaram apenas cinzas... E uma pequena chama púrpura que nunca mais se apagara.
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 Esse foi o resultado final de um rascunho que escrevi a um bom tempo por aqui mesmo. Gostei muito de escrever esse conto, gosto quando minha criatividade cria asas grandes o suficiente pra ir além de onde eu podia imaginar. :)

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