A Fruta

O menino tinha acabado de comprar uma tangerina, pedira dinheiro pra mãe e passou rapidamente pela feira para comprar apenas uma delas e saciar seu desejo. Agora ela era dele e finalmente poderia matar sua vontade inquieta de saciá-la.


 No caminho para casa, entretanto, encontrou pela rua um de seus amiguinhos, este viu a tangerina na mão do outro, grande, suculenta, cheirosa. Não resistiu e pediu um gomo, apenas um. O menino entristeceu um pouco, mas só um pouco, abriu a tangerina que não havia aberto mais cedo para poder saboreá-la no sossego de seu quarto e deu um belo gomo para o amigo, este que agradeceu e foi-se descendo pela rua.

 Chegando em casa o menino foi para o quarto, abriu a tangerina já não tão animado, mas ainda com cuidado, e comeu delicadamente, quase carinhosamente e com certo afeto, cada gomo da fruta. Limpava, cheirava e saboreava cada um deles com meticulosidade. Finalmente saciado, ainda estava inquieto, por que não conseguia tirar da mente o pequeno gomo que fora dado ao amigo.

  "Era só um gominho...", dizia a si mesmo tentando se convencer de que não era nada. Mesmo assim não deixava de lhe incomodar o fato de que parte de sua vontade era saciar a fruta inteira, sem incômodos, tudo como havia planejado. Sem um gomo faltava algo. Ele se sentia satisfeito em fome, mas ainda faltava algo...


    Tinha até pensado em comprar outra tangerina, para fazer tudo certo dessa vez. Tudo como deveria ter acontecido... Mas desanimou. Não havia alternativa, a vontade já estava mais fraca. Só poderia esperar para que da próxima vez que fosse comprar outra fruta em outro dia qualquer, ninguém parasse para lhe pedir um pedaço estragando seu prazer tolo de criança meticulosa e egoísta...

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