A Sutil Presença do Vento

Introdução

 Bom, por onde começar... Quando eu tinha uns 13 anos tive a idéia pra escrever um livrinho bem merda. Sim, bem merda, por que era pra ser sobre a minha vida ou uma parte dela. Mas aos poucos eu fui deixando o meu maldito primeiro possível grande projeto literário nas estantes da imaginação. Não estava preparado (eu e o livro), acho... Hoje a idéia do livro se tornou algo extremamente diferente. Enfim, prepare-se, isso é um conto-resumo da idéia original. Resumos doem.

 Também não tenho costume de escrever em primeira pessoa, na verdade eu odeio escrever assim, mas não tive alternativa aqui, então, me perdoe se a narrativa estiver um tanto ruim ou chata.

I - Começo

 Eu não me lembro bem de como tudo começou... Nem faço muita idéia. Às vezes acho que sou maluco, n’outras já achei que fui abençoado (o que de certa forma fui), mas no fundo sempre tive certeza que a causa de tudo havia sido meu pai... Por quê? É simples... Ele morreu (e já foi difícil pensar sobre isso). Na minha cabeça não era pra ele morrer... Tudo estava dando errado e eu tinha feito 11 anos (acho, minha irmã dizia que eu devia ter uns 10, mas eu já estava na 7ª Serie se bem me lembro).

 Lembro do momento em que cheguei em casa numa tarde qualquer depois de ter jogado um pouco de videogame numa pequena loja de jogos. Sempre tive a minha própria chave de casa desde bem novo, lembro de subir as escadas normalmente como gostava de fazer, pulando degraus, de dois em dois e lembro da minha mãe na porta da sala me esperando naquele dia.

 Ela nunca me esperava na porta da sala pra nada... O mais estranho em tudo é que eu não lembrava em nenhum momento de alguém ter me explicado o porquê da ausência do meu pai, nem de ter dado uma desculpa sequer, mas ele estava ausente há algum tempo, não lembro se dias, semanas ou meses. Lembro de minha mãe dizendo: “Felipe, seu pai chegou.”, lembro de como eu fiquei feliz, eu estava com saudades, muitas saudades.

 Nem suspeitava de que algo estava errado, era novo e ingênuo. Não deu pra perceber que minha mãe prendia o choro, que o ar da casa estava pesado, que toda a casa estava em silêncio. Segui até o quarto ansioso para ver meu pai, minha irmã estava lá com ele e ela chorava. Aquele homem podia ser qualquer um, mas não era meu pai.

 “Vai dar um abraço no seu pai...”, disse minha irmã, ou teria sido minha mãe? Não me lembro. Não importa. Aquele estranho homem que parecia meu pai era extremamente magro, estava chorando muito e falava estranho, como se tivesse algum problema de dicção. Enquanto ele falava, saliva escorria por um dos lados de sua boca, direito eu acho, um detalhe que não lembro.

 O fato é que ele teve câncer (no estômago?) e foi operado, no meio da operação ocorreu um problema e ele teve um derrame. O lado direito (ou seria esquerdo?) todo dele tinha sido inutilizado pelo derrame, mas... Como eu poderia saber isso? Na minha cabeça de criança mimada meu pai tinha morrido ali.

 “Ele não é o meu pai.”; eu repetia pra mim mesmo a cada passo que dava em direção a ele e continuei a repetir mesmo depois de ter abraçado ele. Ele falou coisas que não consegui entender na hora, mas hoje lembrando disso parece que ele tinha ficado muito feliz em me ver. Eu continuei a repetir para mim mesmo que ele não era meu pai até depois de ter saído do quarto... Não lembro bem de mais nada depois disso naquele dia. Tudo que sei é que meu pai havia morrido pra mim, pelo menos havia morrido pela primeira vez. Eu não entendia que estava acontecendo, e sem compreensão surge medo, negação e desapego.

 Existe uma memória ainda latente na minha cabeça que acho que foi do dia seguinte. Na aula, quando cheguei na sala toda a turma estava em silêncio. Esse é um dos momentos que me lembro com clareza, eu senti que aquele silêncio era pra mim, eu tinha certeza que era, também em silêncio me sentei na última carteira da fila do canto direito da sala. Minha vontade foi de levantar e pedir para todos que conversassem uns com os outros, pra que aquele dia fosse como outro qualquer, só mais um dia na minha vida... E era, ao mesmo tempo em que não era. A professora Olga que dava aula de história e geografia (não lembro qual das duas era a aula do dia) veio até mim, colocou a mão no meu ombro e disse: “Se você quiser não precisa assistir aula hoje, pode ir pra casa...”; eu respondi: “Ta tudo bem...”, com uma voz fraca e sem ânimo. Eu estava em negação, precisava fingir que nada havia mudado, precisava sentir o cotidiano de sempre. Eu queria esquecer. Pela primeira vez na minha vida eu tinha conhecido a hipocrisia, minha, por que precisava dela. Existem males que às vezes são necessários. Depois ela passaria a ser uma grande amiga inconveniente.

 Acho que foi depois do dia que reencontrei meu pai que tudo começou: as tendências depressivas e antissociais. Necessidades isolacionistas e... o Vento. Acho que a perda psicológica do meu pai causou uma ausência tão grande no meu peito e na minha cabeça que eu senti uma necessidade de “tapar” esse buraco. Daí surgiu o Vento. Era uma espécie diferente de amigo imaginário, eu acho.

 Eu estava indo pra escola de manhã como sempre havia feito, então, ao passar por uma rua de pinheiros enormes onde o Vento sempre soprava forte que eu senti pela primeira vez. Não como qualquer pessoa sente, não como se sente o mero deslocamento de ar, mas como se sente uma presença viva.

 Ele “disse” oi. Eu não ouvia as palavras dele eu sentia na pele, era como sentir o que ele dizia enquanto ele passava por mim. E eu perguntei: “Quem é você?”, estava espantado, juro, até parei na calçada deserta por um segundo pra procurar “algo” ou “alguém”. Nada.

 “Sou apenas o Vento e nada mais...”; ele respondeu. Eu não acreditei, mas sorri: “Você é um fantasma?”. Ele tornou a dar a mesma reposta: “Apenas o Vento, nada mais...”
 “Por que você está falando comigo?”, perguntei.
 “Não sei, por que você está falando comigo?”, ele disse e tudo estava ficando confuso. Sempre que conversava com ele era assim, algo introspectivo e estranho, mas sempre me familiarizei com ele.

 Durante grande parte do tempo que convivi com o Vento perguntei muitas vezes quem ou o que ele era, mas ele nunca havia dado uma explicação, tudo que respondia era “Apenas o Vento e nada mais...”. Se eu perguntava se ele era Deus, um anjo, ou até um demônio, essa era a resposta, sempre. Quando me dei conta, já o estava chamando apenas por “irmão”...

 Tudo eu contava pra ele, tudo de mim ele sabia. Tudo para mim ele aconselhava. Em tudo ele me ajudava. Posso dizer que ele era o pai que eu pensava não ter... E assim eu consegui não superar, mas ignorar os problemas com meu pai.

II - A Segunda Morte

 Ignorar meu verdadeiro pai era horrível, ele estava lá eu o via, mas pra mim ele era um estranho. Para ele eu estava lá, eu ainda era seu filho... ele ainda me conhecia, só não conseguia entender por que eu agia dessa maneira. Eu fui cruel sem saber, por que eu não conseguia compreender ou aceitar a situação. Eu o ignorava tanto e de tal forma que minha irmã precisou ter uma conversa comigo do tipo: “Ele mudou, mas ele ainda é o seu pai.”. Mesmo assim não adiantou muito, por que apesar de voltar a chamá-lo de “pai” e conversar com ele algumas raras vezes eu não o via como tal.

 Em outro dia ruim qualquer eu estava deitado na minha cama, lendo algo, acho que uma revista em quadrinhos. O telefone toca. Minha mãe atende na sala, mas de alguma forma eu consegui ouvir os passos dela e percebi quando ela atendeu. Segundos depois ela estava no meu quarto e chorava. Meu pai havia morrido e dessa vez era de verdade. Ele havia sido mandado para um hospital por conta de problemas respiratórios (acho, na verdade ele tinha um soluço que não parava, pelo que me lembro). Quando ela me deu a notícia foi como se tudo fizesse sentido. Eu finalmente tinha entendido que ele era meu pai, eu finalmente conseguia ver que ele esteve lá o tempo todo, mas eu não pude dar a atenção que ele precisava. Eu só soube ignorar ele por completo...

 Existe algo que, na época que me reencontrei com ele logo após a operação do tumor, eu não lembrava. Não sei se é realmente por que eu era muito novo, ou por que minha memória gosta de me pregar peças... Mas talvez tenham tentado me contar que meu pai estava doente, eu não sei, tudo é muito confuso quando as memórias são mais antigas. O fato é que na época em que minha irmã estava morando no Rio fizemos uma viagem até lá, acho que meu pai já estava no hospital com o tumor bem avançado. Lembro de minha irmã pedindo pra eu rezar muito pelo meu pai por que “Deus ouve melhor as crianças...”, e foi mais ou menos por aí que tinha me dado conta pela primeira vez de que meu pai podia morrer. Lembro de ter me trancado no banheiro e chorado muito, sempre fui orgulhoso e nunca admiti que ninguém me visse em nenhum momento de fraqueza. Orgulho infantil é uma coisa, não?

 Também lembro que minha irmã disse que se qualquer problema acontecesse na operação a culpa seria nossa. Que meu pai poderia ter complicações na cirurgia pra remover o tumor caso ficasse muito preocupado comigo, minha irmã e minha mãe. E talvez por conta da preocupação a cirurgia não foi bem sucedida. Não sei... Talvez eu tivesse imaginado toda essa parte na minha cabeça por que me sentia culpado. Minha cabeça é confusa.

 O fato é que ele havia morrido e eu não tinha me despedido, eu não tinha pedido perdão, eu não consegui me redimir. Até o último abraço que havia dado em meu pai era falso, por que eu não o enxergava como pai naquele momento. Lembro que na noite que ele morreu eu chorei desde a hora que ele havia morrido até pegar no sono e acordei no outro dia com o travesseiro úmido...

 Depois desse dia... o Vento passou a soprar mais forte...

III - Um fim sem fim...

 Ainda hoje eu ouço o Vento. Ele esteve ausente em alguns momentos, mas às vezes sempre saio pra conversar com ele. Tempos atrás eu costumava dizer pro Vento que não conseguia seguir adiante na minha vida por que ficava sempre pensando no meu pai e em como gostaria de pedir perdão. Tudo que eu sempre quis foi que ele me visse com orgulho... Agora isso é impossível por que eu não acredito em céu, reencarnação, espíritos ou qualquer coisa do tipo... Eu só acredito no Vento e uma parte de mim espera fortemente que meu pai tenha se tornado parte dele depois de morrer, como eu espero me tornar um dia...

 Odeio dizer essas coisas por que parece que estou culpando meu pai pelos problemas do meu presente, mas na verdade eu só culpo a mim mesmo. Isso não é certo, mas não consigo me desapegar, eu fiz tudo errado... E não consigo deixar de me culpar pelo menos um pouco, mesmo depois de tanto tempo. Aqueles dias não me assombram mais com tanta freqüência, eu já consigo seguir minha vida depois de tudo que aconteceu... mas ainda assim às vezes eu olho pra trás. Eu sou humano, eu erro, eu me arrependo, eu fico imaginando como teriam sido as coisas se tivesse feito diferente... Eu também sigo em frente.

 Fico pensando se eu teria cometido muitos dos erros que cometi em minha vida se certas coisas não tivessem acontecido. Por uma boa parte da minha adolescência eu fui egoísta, mesquinho e hipócrita (acredito que como a maioria dos adolescentes do mundo). Não sabia pensar em outra coisa além de mim mesmo... Hoje que eu finalmente deixei de ser tantas coisas ruins ainda não consigo perdoar a mim mesmo por tudo que fiz, mesmo depois de várias coisas boas.

 Já me chamaram de louco, até de psicopata. Talvez seja verdade, talvez eu tenha perdido pedaços de sanidade com a vida e a solidão. É triste dizer isso, mas já me senti muitas vezes sozinho em meio à grandes amigos, mas eu busquei isso. Continuo orgulhoso e não querendo mostrar fraquezas como a criança que se tranca no banheiro pra chorar pra que ninguém veja. E no meio desse orgulho acabo não conseguindo me abrir por completo para as pessoas com quem mais tenho confiança...

 Alan Moore, um escritor de “Graphic Novel”s (pra não dizer quadrinista) bem conhecido, escreveu uma vez que é preciso apenas um dia ruim pra transformar o mais são dos homens num completo lunático. Bom, eu tive dois dias ruins de verdade... e o resultado foi o Vento... Mas eu não abriria mão dele por nada, pois se ele é uma insanidade minha, ele é a insanidade mais agradável que já conheci. Como já disse, sou humano, e como todo humano louco eu não acredito ser louco... Ainda tenho medos, ainda tenho sonhos, ainda vivo... Às vezes os fantasmas do passado me assombram, mas todos têm fantasmas. Eu não estou sozinho. Ninguém está. E a vida, bem... Ela continua, e vai melhorando sempre.

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