A Última Tormenta

(Eu queria postar um outro conto aqui, mas como ainda não escrevi... depois eu faço. Enquanto isso posto esse conto que escrevi tem uns dias. Mais uma vez... conto não relido, desculpem quaisquer erros.)

Uma tempestade vinha lá fora.

O vai-e-vem do barco era nostálgico, algo eterno e místico que sempre conseguia embalar sua embriagues aliviando qualquer efeito de enjôo ao invés de aumentá-lo. Deve ser pelo costume, aquele barco era sua casa a um longo tempo. Em breve iria abandoná-lo.

Quantos meses se passaram desde a última vez que havia pisado em solo? Foram realmente meses? Será que não foi há alguns dias atrás que tinha aportado numa pequena cidade para um saque rápido? Se foi, será que ele realmente desceu do navio? Não se lembrava, mas ainda estava muito vivo em sua memória o tedioso dia em que encontrou o primeiro fio de cabelo branco de sua barba. Passara a raspá-la todos os dias desde então.

A tempestade lá fora se aproximava.

Naquela manhã ele havia acordado com uma dor infernal na coluna. Ele estava velho, sabia disso, as instalações do capitão por melhores que fossem nunca ajudavam, mas estava já acostumado com elas. Seguia cada dia com a principal lei do antigo capitão: “Um saque a mais, por menor que seja, são mais alguns tostões para nossa riqueza.”. Havia o matado num motim por pura ganância seguindo sua natureza selvagem. Conquistara o temor de todos com tal ato, mas hoje, naquela manhã, temia ter perdido qualquer aura aterrorizante ou mesmo respeitosa que poderia emanar.

Logo que acordou sentira que a dor nas costas havia atingido escalas catastróficas, não havia mais solução. Percebeu que seus tempos de raposa dos mares haviam se acabado no momento que só conseguiu aliviar suas dores com grandes doses de bebida, e o alivio foi pouco. Mandou reunir os homens no convés e anunciou a todos para mudarem o curso para sua cidade natal, iria se aposentar. Não mencionara uma divisão de bens, nem se escolheria quem seria o próximo capitão e sabia que só por isso já estaria sendo jurado de morte por alguns de seus homens, senão todos. Mal olhou as expressões que eles teriam feito de desgosto por ele, apenas voltou para sua cabine e se trancou lá.

Nuvens pesadas se formavam em velocidade, flashes relampejantes iluminavam áreas da cabine que luzes artificiais não conseguiam alcançar.

Estava tudo acabado de uma forma ou de outra e ele sabia disso. Mesmo que a tripulação o deixasse ir não conseguiria mais voltar a pisar num barco por puro orgulho. Ao olhar a formação das nuvens pela janela algumas vezes via formas cadavéricas que pareciam querer engolir sua alma. Efeito do rum? Talvez... Agora a dor era insignificante e seu corpo estava quase que anestesiado por completo.

O balanço das ondas e do barco aumentaram com a aproximação da tempestade. Passos ligeiros percorriam os arredores, vultos se preparavam para aquela tormenta, homens gritando em meio à chuva forte. Ele não podia esperar mais. Aquela tormenta era uma benção, uma das mais fortes que já enfrentara e sentia que poderia morrer dessa vez, mas era exatamente o que esperava, pois se ela o levasse então poderia morrer com a honra de um pirata. Se ele sobrevivesse a ela, ou morreria pelas mãos de seus homens mais gananciosos ou teria de se recolher como um cão sarnento com o rabo entre as patas.

Pelo menos sabia que nenhum de seus (ainda) companheiros o apunhalaria naquela noite. Eles sabiam que precisavam de todos, incluindo o capitão, para que todos saíssem vivos. Eles ainda eram um só com o barco. Quando a tempestade baixasse eles poderiam voltar para sua existência egoísta de sempre.

A tripulação chamava agora pelo seu capitão. Precisam de sua experiência marítima e sabedoria para guiá-los da melhor forma possível. Deu uma última longa golada indo em direção a porta da cabine e a abriu. Encarou a tempestade sorrindo novamente para ela e saiu para confrontá-la.

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