Criatura

(Nota: Ando tão nostálgico que não consigo pensar em nada mais pra postar além de textos antigos... Então, esse foi meu primeiro conto. Da mesma época depressiva que escrevi a poesia do post anterior. Pode ser um pouco "pesado", mas a intenção era essa mesma... Ah, da pra notar que minha escrita ainda precisava evoluir na época.)

Um jovem em sua casa pensava na vida simples, comodista e patética que sempre havia levado. Como queria ele que todo aquele tédio acabasse, toda sua vida mudasse, que alguém pudesse lhe estender a mão e levá-lo frente às portas da liberdade, para fora daquele apartamento imundo, daquela vida repugnante. Inevitavelmente tudo o que conseguia sentir era um desânimo crescente. Ao seu lado um pote de remédios sem rótulo e um copo úmido jaziam abandonados. Ambos vazios.
Sentia-se levemente enjoado, com um estranho embrulho no estômago. “O efeito desse troço não ta sendo como eu esperava...”, pensou ao remexer o pote vazio. Achou que poderia confiar nos remédios e que eles dariam cabo de seu péssimo estado. Talvez fosse melhor ligar para um médico, mas também achou que talvez aquele mal-estar passasse logo. Resolveu esperar.

Quando menos percebera uma neblina negra o envolvia aos poucos e se tornava cada vez mais densa. O jovem olhou espantado, nunca em seus poucos anos de vida vira coisa tão estranha. Que poderia ser aquilo? Alguma alucinação devido ao medicamento? Ele se levantou rapidamente num susto ignorando todo seu mal-estar e pulando do sofá observando em seguida a esguia forma nebulosa de sombra viva. A criatura parecia possuir silhueta aparentemente humana, era como o reflexo de um homem sem face num espelho negro, fosco e sujo.

A sombra, apesar da aparência fumacenta, não possuía nenhum odor. O jovem não conseguia entender o que aquilo era. Fantasma, aparição, demônio ou qualquer tipo de emanação sobrenatural... Não havia explicação, nunca nem tinha visto filmes de terror com criaturas similares. Sentiu-se atordoado.

A criatura se aproximava lentamente e quanto mais perto ela chegava mais o jovem sentia um rancor crescente em sua alma, parecia que a criatura devorava seus sentimentos bons e os substituísse por dor e sofrimento.

Numa tentativa impulsiva de fuga o jovem correu pela sala, passando pelo corredor e entrando em seu quarto - um dos poucos lugares da casa onde se sentia seguro - trancando a porta em seguida. Agora encurralado, sentou-se na cama e recostou-se contra a parede esperando o que no fundo ele sabia que iria acontecer.

Segundos depois ele podia ouvir um som muito familiar, como o do vento que passa pela fresta de portas. Era exatamente o que a criatura fazia, recompondo-se aos poucos na medida em que sua esguia forma nebulosa entrava no quarto. O jovem olhava espantado e sem esperanças para a criatura, estava encolhido em seu canto e quase desistindo, mas ainda tinha uma idéia.

Ergueu-se e esperou a criatura chegar o mais próximo possível dele e, quando ela estava à distância de um toque, o jovem correu em disparada por dentro da obscura forma enevoada. Depois dessa passagem forçada ele já esperava sentir novamente uma dor interior muito maior que a da última vez, mas não pensou que ela viria tão intensamente. O aperto em seu peito foi tão forte que não conseguia se manter de pé, se contorceu levemente ficando quase em posição fetal. Aquela dor lhe parecia tão familiar que ele não conseguia entender o que estava acontecendo com ele, sentia que nada mais importava, que era a pessoa mais solitária do mundo, que ninguém nunca entenderia seus pensamentos ou sentimentos. Isolado, perdido, sozinho, tudo que conseguia fazer agora além de sentir todo o peso de um mundo em forma de sentimentos negativos era chorar.

A cada centímetro que a criatura se aproximava mais intensamente ele sofria, mas não importava mais, ele já havia desistido. Ela o envolveu por completo e começou a entrar em seu corpo pelos seus olhos, narinas e boca. Parecia estar possuindo ele. O jovem nem se contorcia ou lutava, não tinha mais forças, apenas cedia à vontade criatura. Após alguns segundos ela já havia sumido por completo, estava no corpo e na alma do jovem. Agora ele tinha profundas olheiras, uma expressão triste e sombria remanescia em sua face de modo que qualquer pessoa que o visse naquele momento sentiria pontadas na alma, como se compartilhasse das chagas do jovem. Constantes lágrimas rolavam de sua face.

Com o sofrimento de vidas acumuladas em frações de segundos, o jovem levantou vagaroso e se arrastou pelos cantos da casa até a cozinha. Quando chegou lá, ele estendeu seu braço até a gaveta de facas pegando uma delas e por fim cortando seus pulsos. A dor física do corte era insignificante perto do pesar de sua alma, mas conseguia sentir ambas se misturando e o envolvendo.

O sangue se esvaia aos poucos e seus olhos ficavam cada vez mais pesados. Com o que lhe restava da consciência o jovem perguntou com esforço, sua voz era fraca e sem ânimo:

- Quem é você?

- Depressão...

A resposta saíra da boca do próprio jovem, porém sua voz parecia não apenas vivaz e forte como também obscura e um tanto inumana.

Assim o jovem fechou seus olhos para que nunca mais os abrisse por vontade própria.

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