Cotidiano

Já está na hora do almoço. Não no meu horário de almoço, pois meus horários são desregulados e eu almoço lá pelas quatro da tarde. Deve ser meio-dia agora... Não tenho certeza, preguiça de olhar o relógio. Pelo menos essa parte do dia está com ares de meio-dia.

O silêncio quase prevalece sobre a vizinhança, ouço ruídos distantes de talheres e água. Palavras quase inaudíveis são proferidas em alguma casa vizinha, lembram os burburinhos de um fim de almoço... Ou seria do início?

Tenho quase certeza de que é meio-dia, o sol parece já ter percorrido metade de seu caminho diário. Não é preciso ser um gênio para conseguir perceber uma coisa dessas, uma boa intuição e um olhar observador já bastam...

Estou sentado no sofá velho da casa de meu avô, um sofá preto e todo rasgado. Sofá de mola - dá pra acreditar? Parece que estou sentado numa espécie de “elo perdido”...

Não uso camisa. Não que esteja fazendo calor, mas é bom sentir a brisa que vêm da porta. Fico recurvado sobre o caderno que está em meu colo e meu cordão balança quase como um pêndulo. Pra frente e pra trás, frente e trás, frente... trás... Lembra o tic-tac de um relógio. Melhor mudar de posição.

O cordão-pêndulo para de balançar e repousa sobre meu peito, meu coração. Nos últimos dias ele voltou a bombear normalmente, acho que ele está descongelando. Acho que esse velho mecanismo feito de carne negra, podre e esburacada está voltando a bater, também sinto que os vermes que o habitavam estão desvanecendo.

Pena. Preferia quando suas batidas eram fúnebres, quando sua carne exalava um repugnante odor de morte viva, quando seus músculos queimavam de tão frio e, definitivamente, sentirei saudades daqueles vermes necrófagos que pouco a pouco sorviam minha essência numa lenta agonia indolor...

Estou a um possível passo da felicidade; só um mísero passo. Não quero ser feliz, me contento com meu “equilíbrio”. Não posso dizer que estou feliz, mas também não estou triste. Digamos que eu esteja acomodado apesar de entediado...

Com o tempo descobri que para muitas coisas na vida existe uma balança que deve estar sempre em pleno equilíbrio. Um exemplo é a felicidade e a tristeza. Você até pode ser feliz, mas não existe felicidade constante. Para manter o equilíbrio você precisa de alguns momentos de tristeza na vida, senão a balança “quebra” com a felicidade em peso. “Quando estiver feliz sempre espere pelo pior e se as coisas já não estiverem muito bem se prepare, pois antes das coisas melhorarem tudo sempre piora.”, eu sempre digo.

Por isso não consigo dar aquele passo para uma possível felicidade já que sei o que virá em seguida, mas nem é só por isso... Também não acho que esse seja o momento certo para que eu a abrace. De qualquer maneira ela já está me envolvendo, me possuindo. Por mais que eu lute sei que vou perder... Na verdade eu já perdi, só levando em conta o texto que agora escrevo nota-se que eu perdi. Agora sou dela, mas por quanto tempo?

Tudo isso se resume à minha vida amorosa, pois sempre sofri com relacionamentos e isso aos poucos foi me transformando no que hoje sou. Abri total mão de meus sentimentos e dei ouvidos à razão, porém uma pessoa surgiu em minha vida fazendo com que desejos e sentimentos perdidos se encontrassem novamente.

Enquanto meus sentimentos tentam falar mais alto e exigem ser fisicamente expressados, minha razão reluta em ser ignorada. Ela acredita que nenhuma felicidade compensa e por isso grita, resmunga e até rosna sabendo que dar ouvidos aos meus sentimentos significa sofrer.

O que fazer? Como pensar? Para quem devo dar ouvidos? Devo sucumbir aos desejos de um coração deprimido? Devo me fechar e reprimir ainda mais meus sentimentos já reprimidos? Não sei... Farei apenas como antigamente, deixarei a vida me guiar e veremos no que dá...
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Tem aproximados três anos desde que escrevi essa crônica... e hoje ela volta a me perseguir. Hoje acho que estou revivendo essa mesma coisa que vivi três anos atrás... talvez esse seja o motivo de eu estar nostálgico.
Sei lá...
Ia escrever mais coisas aqui, mas melhor deixar como está, os pensamentos estão confusos e não quero passar coisas mal entendidas...

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