Um banco e um cigarro...

Nota do Autor
 Esse conto é um dos maiores que eu escrevi, por isso antes de começar aviso logo que não há garantias se ele vale a pena de ser lido, isso vai da cabeça de cada um, se serve de ajuda esse é um dos contos que mais amo e geralmente eu não gosto do que eu escrevo. =)

 Há anos não a via. Estava sentando no mesmo banco de praça de todas as noites que passaram juntos. Por que havia ligado mesmo para ela? Saudades, malditas saudades. Agora estava ali, feito o tolo que sempre fora, esperando alguém que provavelmente nunca viria. Por que ela quereria vê-lo? Ninguém gostaria de rever alguém que lhe causou tantas dores e confusões. Mesmo assim ele esperava; já estava ali há meia hora.

 A praça estava quase vazia, provavelmente por conta do horário. “No mesmo horário de antigamente.”; disse ele ao telefone. “Certo.”; ela respondeu, sem ânimo. Desligou ignorando o ar de desânimo da voz dela, na verdade talvez nem tivesse percebido, novamente iludido por sonhos, incertezas.

 À dez metros de distância de onde estava havia outro banco com dois jovens enamorados, talvez jovens demais para estarem tão tarde numa praça. Sentiu pontadas de inveja ao vê-los ali abraçados, sorridentes, realmente apaixonados. “Talvez se amem de verdade.”; pensou consigo. Nunca sentiu como se realmente amasse alguém, não por dúvidas sobre seus sentimentos, mas sempre acreditou que todo amor verdadeiro e puro é sempre bem correspondido. Sabia que esse seu modo de ver o amor era meio infantil devido certa “inocência”, uma fé inabalável em algo que ele já possuía motivos suficientes para desacreditar, mas não importava.

 Ver o casal lhe trouxe saudades de coisas que nunca aconteceram, coisas que deveriam acontecer da forma que desejava que acontecesse. “Eles se amam de verdade.”; concluiu por fim. Algumas pessoas têm sorte de encontrar o amor assim, com facilidade e bem cedo. Não era desses sortudos.

 Perdido em devaneios, sua atenção se voltada naquele momento do casal quando seus pensamentos foram cortados por uma maresia familiar que invadia seus pulmões e se tornava cada vez mais forte. Instintivamente sorriu e antes de procurar a fonte do terrível odor que lhe causava tanta felicidade sentiu uma mão suave que lhe afagava a cabeça. Era ela, ainda com seus cabelos cor de cobre, um tanto desgrenhados, era magra, quase esbelta, nem alta nem baixa. Em sua outra mão um cigarro, em seu rosto um eterno sorriso meigo e singelo.

 - Não parou com isso?; como de costume as primeiras palavras dele para ela eram de crítica e como na maioria das vezes, sobre o fumo. O qual ela sempre rebatia de duas formas: um simples olhar reprovador ou chamá-lo pelo nome em vez de apelidos. Ele odiava seu nome. Ela amava.

 Os dois silenciaram por instantes, ela sentou ao lado dele e notou que ele observava o casal ali perto. Acompanhou-o enquanto ficavam calados, depois de um tempo disse: - Não está tarde para crianças ficarem na rua?; ele sorriu ao ouvir aquilo. Talvez por ter pensado o mesmo alguns minutos atrás, talvez por que teve a sensação de ser mais velho do que realmente era.

 - Na idade deles saíamos de madrugada sem que ninguém soubesse – disse ele, voltando-se para ela – e sabe muito bem que fazíamos coisas piores do que o que eles fazem; ela sorriu, não seu eterno afável sorriso, mas um sorriso caloroso e muito mais sincero.

 - Verdade, mas nós tínhamos consciência que muito aborrecente não tem; deu uma tragada no cigarro e voltou a olhar os jovens. Dessa vez ele que a acompanhou.

 O casal se beijava o tempo todo, ambos se sentiam livres nos braços da madrugada, a mágica dessa dama do tempo os enfeitiçou de tal modo que para eles não havia mais ninguém ali, pouco notaram a presença do casal de observadores. Quando não se beijavam estavam sussurrando palavras no ouvido um do outro. Quando não estavam trocando línguas nem verbos calorosos correspondiam seu amor no silêncio de um longo abraço.

 Ela deu uma última tragada no cigarro e o apagou, soltou a fumaça com um ar de extremo tédio. – Que nojo, são muito melosos...; resmungou, depois se voltou para ele cruzando as pernas sobre o banco, apoiando o cotovelo direito na perna e o rosto no punho com ares de tédio ainda maior. Ele pareceu não reparar o comentário, só percebera que ela havia falado algo, não se importou com o que. Pensou em perguntar o que ela havia dito, mas foi interrompido sem intenção: - Então, por que me chamou aqui? Saudades? - mais uma vez o sorriso dela mudara, dessa vez com ares de malícia e olhares curiosos.

 Respondeu apenas com um “Talvez...” vago e sem sal, mas retribuiu os olhares quase com a mesma malícia das palavras dela. Era mentira. Não as palavras, mas a malícia dos olhares, ele a tinha chamado ali por que queria colocar um ponto final no antigo e confuso relacionamento que tinham. Queria aproveitar que estavam distantes por conta de trabalho e estudos de ambos. A malícia manipuladora dos olhares era necessária por que não queria deixar passar a princípio que estava ansioso, que tinha medos, receios. No final de seus pensamentos resolveu falar de vez, sem rodeios, sem encenações. Mostrou seu verdadeiro olhar para ela, um olhar frio, calculista e tremendamente profundo. A princípio não disse nada, parecia esperar algo.

 Ao presenciar aquele olhar ela tomou consciência da seriedade da situação. Seu eterno sorriso pela primeira vez em anos se deseternizou, ficou tão séria quanto ele, mas com uma pontada de medo adicional. Respirou fundo para dar início a uma conversa que sabia que seria dolorosa e nesse mínimo instante de um fôlego ela lembrou de todas as esperanças que teve ao receber o convite de um encontro “No nosso antigo banco de praça.”. Esperanças essas de que ele finalmente pediria perdão por tudo que fez a ela, de que eles poderiam finalmente dar uma continuidade àquela relação estagnada e de que ele, por fim, diria que a ama... Pegou todas as esperanças e as jogou fora.

 - O que houve? - ela perguntou, sem alterações na voz. Tentou esconder ao máximo todos os seus sentimentos, mas sabia que era inútil, sabia que ele estava lendo sua expressão facial e gestos com precisão.

 - Acontece que eu estou amando...; ele respondeu diretamente, inexpressivo, como havia decidido. Nem parecia mais o mesmo do início do encontro, talvez não mais o fosse. Ela sorriu, tinha todos os motivos do mundo para chorar, gritar e bater nele. “Nem ao menos um maldito perdão?!”; pensava ela em meio a tanto ódio e apesar dos pensamentos e desejos lacrimosos, conseguiu esboçar um novo sorriso. Seu orgulho nunca fora seu ponto forte, mas era tudo com que poderia contar nesse momento.

 Por um instante ele se sentiu atordoado, achou aquele sorriso sincero demais, mas depois se lembrou de como ela conseguia retirar forças do nada para esconder as mais dolorosas lágrimas. Pensou em retribuir o sorriso por pura provocação, talvez até lhe acariciar as belas bochechas que ele tanto adorava, mas afugentou tais pensamentos e se voltou para seu objetivo principal, cortar definitivamente seus laços com ela.

 - Resumindo, não sei se podemos mais nos ver, sei que nossa amizade seria dolorosa para nós dois. - ele continuou, ainda secamente e ela engolia todas as palavras mantendo seu sorriso orgulhoso, respondendo ao que ele dizia com um simples “Sei...” e um leve gesto afirmativo com a cabeça. Percebeu como ela estava reagindo a suas palavras... Tomou fôlego, colocou a mão no bolso e tirou um cigarro velho, amassado e um pouco manchado. Ao ver aquele cigarro ela compreendeu que era realmente o fim e seu sorriso se desmanchou junto com seu orgulho. – Lembra dele? Foi o cigarro que eu te pedi pra puxar assunto quando nos conhecemos...; fez uma pausa e olhou para ela que parecia abalada.

 - Lembro. Você disse que era pra fumar depois, mas você ainda não fumava. - ela olhava penetrante para o cigarro e viu quando ele o colocou em sua mão dizendo: “Fica com ele, finge que eu nunca pedi.”.

 Ele se levantou, colocou as mãos nos bolsos da calça para protegê-las do frio, deu alguns passos em direção à rua, parou no terceiro e olhou para trás. Ela ainda olhava intensamente para o cigarro velho e amassado. Pensou em dizer mais alguma coisa para ela, algo realmente sincero como: “Nunca te esqueci, nem esquecerei.”; “Você foi mais importante para mim do que imagina.” ou “No fundo você é a única que amo, mas tenho medo de admitir...”. Não disse nada. Estava cansado de dizer sinceras mentiras. Tornou a seguir seu caminho e não olhou para trás.

 Quando saiu da hipnose imposta pelo cigarro, reparou que ele estava sumindo em meio a uma rua escura. Cabisbaixa, viu apenas sua silhueta sumindo na noite. Ficou ainda alguns segundos ali sentada antes de finalmente se levantar para ir embora. Parou no meio-fio quando se deu conta de que ainda segurava o cigarro na mão. Pegou o isqueiro e o acendeu. O clique do isqueiro despertou o casal de enamorados de seu transe, eles ficaram a observá-la enquanto ela tragava, o ato parecia naquele instante mais importante que qualquer coisa no mundo para os três. O cigarro não tinha gosto bom, nem ruim; apenas não tinha gosto. Nem a fumaça do cigarro tinha cheiro. Não havia mais palavras a serem ditas, não havia mais nada para ser feito. Ela jogou o cigarro fora e foi embora realmente esquecendo que um dia alguém o tinha lhe pedido.

 Minutos depois o casal de enamorados resolveu ir embora também, se acharam jovens demais para ficarem na rua até aquela hora da madrugada.

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