Águas de Março

Sentado em minha cama, leio o livro “Viventes das Alagoas”, ótimas crônicas de Graciliano Ramos sobre sua terra, reunidas em volume único. Estava lá pela página noventa-e-algo quando começo a sentir um cheiro conhecido, como o de madeira recém serrada, ou mesmo serragem.

A janela do quarto está aberta por conta do calor, o vento refresca um pouco o ambiente. A princípio penso que aquele odor familiar vem das páginas do livro, já que tem mais de trinta anos, mas o cheiro está forte demais para vir dele.

Subitamente me dou conta de que cheiro é esse... Uma fragrância que sempre amei: o cheiro de asfalto quente umedecido pela chuva. Corro para a janela após marcar a página do livro com a primeira coisa que encontro - meu celular. Chego à janela e vejo um chuvisco carinhoso baixar a temperatura da cidade, fazendo com que o vento abafado de verão se torne uma brisa fresca de primavera.

Fecho os olhos pra sentir melhor a brisa afável animar-me o espírito. Fazia alguns dias que não chovia, semanas talvez. Já estava sentindo falta dessa dama que tanto amo. Enquanto aprecio o momento, as gotículas escurecem o asfalto pouco a pouco.

Abro novamente os olhos e reparo que a chuva apertou um pouco, apenas o suficiente para fazer com que as marcas das gotas não sejam mais perceptíveis. Instintivamente deixo meus lábios largarem junto à brisa três palavras costumeiras minhas que mando para a chuva, não profiro nenhuma sílaba, apenas as sopro em direção ao nada sabendo que serão recebidas por quem eu quero, onde quer que estejam:
“Eu te amo...”

Após perceber o que supostamente disse fico a me perguntar para quem eram tais palavras. “Parentes? Amigos? Amores? Chuva?”. Creio que para todos. Logo tendo respondido minha primeira dúvida me pergunto se estes receberiam a mensagem. “Duvido um pouco...”. Ninguém faz idéia desse meu ritual tolo que faço em momentos chuvosos diversos.

Agora noto que aquela chuva não veio ao acaso, veio como naquela bela música: “São as águas de março fechando o verão...”. Verdade! Apesar de ainda não ser março, já é 25 de fevereiro. Essa então é apenas uma prenuncia para o desfecho da estação que tanto repudio.

Decido sair de casa e largar por hora o livro, sentir o toque da chuva e receber sua graça. Será que mais alguém sente a chuva como eu sinto? Espero que sim, pois se for alguém que conheço e muito amo, sentirá com ela minhas declarações mais reprimidas e sinceras.
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PS: Crônica velha, escrevi ano passado, mas que acabei esbarrando com ela por aqui e obviamente achando ela bem propícia para que fosse postada, né? =)
Espero que minhas leitoras preferidas gostem. ^^
Abraço pra elas. ;*

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