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Criatura (reescrito)

Era uma vez um jovem...   ...um daqueles revoltados com a vida, talvez pela falta de uma criação adequada, talvez por mera rebeldia gratuita. No dia em questão, ele estava sentado no sofá de sua casa, pensando no quanto se odiava. Nascer, aprender, estudar, crescer, sentir, se envolver, se formar, trabalhar, viver, sobreviver, lutar, falhar, conseguir, perder, sofrer, chorar, se arrepender, compreender, aceitar e (finalmente) morrer... Não necessariamente nessa ordem.

Notívagos (reescrito)

Imagem
  Foi numa rua vazia e mal iluminada onde uma lua minguante mal se observava. Eu estava apenas passando desapercebido, percorrendo meu caminho sem notar que estava sendo seguido.   Quando percebi era tarde, ela havia pulado em minhas costas, me imobilizando de alguma forma que não pude compreender. Nem os dedos conseguia mover. Senti seus dentes penetrando e tentei gritar, mas não consegui apesar da tamanha dor que tive que suportar.

Refração

Tive um pesadelo, um dos mais estranhos... você estava nele. Sabe aqueles sonhos que você não sabe como começa ou termina e que você só lembra trechos? Então, meu pesadelo foi assim. Acho que o começo foi uma parte em que éramos como um corvo e um lince "brincando" um com o outro, foi uma das partes mais confusas, por que às vezes a coisa ficava em terceira pessoa (eu via a mim mesmo), às vezes eu via tudo em primeira pessoa, como eu mesmo, e às vezes eu via como se fosse você (ou talvez fosse eu discutindo comigo mesmo, não sei). Em momentos eu era o lince e você o corvo, em outros momentos os papéis se invertiam, nas piores partes nossos rostos humanos apareciam nos corpos animais. Só teve uma parte agradável em que você ficou mais humana, apenas com traços animais (do lince), toda ferina, toda esguia e arisca... Não gostava de você como corvo, dava medo. Também lembro de uma viagem que fazíamos de carro, parecíamos recém casados em espécie de lua de mel, mas sempre que eu ...

O Recheio

(Olha só isso... faz um bom tempo que eu não escrevo um conto, mais ainda um com personagem principal feminina. É curto, simples, porém direto. Adorei escrevê-lo, mas não o li, nem lerei tão cedo, porém espero que você, seja quem for, leia e goste.) O dia estava vazio. Ela estava vazia. Tudo parecia sem graça e sem vida, parecia que estava tendo uma de suas recaídas. Malditos acontecimentos inesperados que nos pegam por trás, pela frente e lados e nos deixam sem reação. "Vou fazer bolo de fubá!" - só sua mãe sabia como ela amava, era um bolo tão simples que caia no esquecimento até dela mesma. Não era fã daqueles muito enfeitados com glassê nas bordas e recheio trufado. Como era gulosa usava um pouco a mais do que o normal das receitas de sua mãe e avó. Punha às vezes um ou dois ovos e meia ou uma xícara a mais de açúcar, farinha, fubá e leite, mas tudo sempre medido pra que nada desandasse. Possuía até um tabuleiro bem fundo pra essas suas receitas exageradas, por que com el...

Criatura

(Nota: Ando tão nostálgico que não consigo pensar em nada mais pra postar além de textos antigos... Então, esse foi meu primeiro conto. Da mesma época depressiva que escrevi a poesia do post anterior. Pode ser um pouco "pesado", mas a intenção era essa mesma... Ah, da pra notar que minha escrita ainda precisava evoluir na época.) Um jovem em sua casa pensava na vida simples, comodista e patética que sempre havia levado. Como queria ele que todo aquele tédio acabasse, toda sua vida mudasse, que alguém pudesse lhe estender a mão e levá-lo frente às portas da liberdade, para fora daquele apartamento imundo, daquela vida repugnante. Inevitavelmente tudo o que conseguia sentir era um desânimo crescente. Ao seu lado um pote de remédios sem rótulo e um copo úmido jaziam abandonados. Ambos vazios.

Um banco e um cigarro...

Nota do Autor  Esse conto é um dos maiores que eu escrevi, por isso antes de começar aviso logo que não há garantias se ele vale a pena de ser lido, isso vai da cabeça de cada um, se serve de ajuda esse é um dos contos que mais amo e geralmente eu não gosto do que eu escrevo. =)  Há anos não a via. Estava sentando no mesmo banco de praça de todas as noites que passaram juntos. Por que havia ligado mesmo para ela? Saudades, malditas saudades. Agora estava ali, feito o tolo que sempre fora, esperando alguém que provavelmente nunca viria. Por que ela quereria vê-lo? Ninguém gostaria de rever alguém que lhe causou tantas dores e confusões. Mesmo assim ele esperava; já estava ali há meia hora.  A praça estava quase vazia, provavelmente por conta do horário. “No mesmo horário de antigamente.”; disse ele ao telefone. “Certo.”; ela respondeu, sem ânimo. Desligou ignorando o ar de desânimo da voz dela, na verdade talvez nem tivesse percebido, novamente iludido por sonhos,...

Hematófagos

O sangue escorria. Ela me mordera. "Por que? Como?" Foi como reagi Quando percebi Onde me meti. Era um encontro, Desses às escuras... Estava carente. Agora tenho sede, A latente necessidade. Sede, sede, sede... Meu amigo dissera: "Ela é bela, culta..." Foi minha culpa. Não posso culpá-lo Por minhas fraquezas. (Ele sabia. Certeza.) Corpo esguio, Ares soberbos, Olhares de anjo caído... Senti certo medo, Talvez fosse instinto... Algo não estava certo. Ignorei meus sentidos. Ela era meiga, afável. O que daria errado? Do bar para casa. Da casa para o quarto. Pensei estar apaixonado... Talvez estivesse. Senti seus lábios Em meu pescoço nu. Eu era a presa Inquieta sob domínios De uma bela fera. Um calafrio percorria Meus músculos e espinha. Era tudo que sentia. Mal pude notar Uma mordida leve Seguida do frio inundante Nem a tonteira Devido à perda Excessiva de sangue. Desmaiei (morri?). Acordei. Ela fora embora, Mas deixara sua marca. Agora sou também Amaldiçoado como ela....

O Admirador

Lá estava ele de novo a observá-la. O modo como ela ajeitava as mechas de cabelo da frente do rosto para não atrapalhar a visão, quando ela se recurvava frente ao caderno para escrever seja lá o que ela escrevesse, o andar apressado e quase fujão de garota medrosa, os rápidos riscos de olhares curiosos para objetos ou pessoas que lhe interesassem repentinamente, o ar de seriedade quando defendia qualquer de suas crenças ou mesmo suas hipóteses. Era um vício prazeroso ficar apenas a olhar o modo como ela fazia graciosamente qualquer coisa. Quase uma obsessão, apenas quase. O sorriso que ela soltava quando contava algo que parecia engraçado era um charme único. Tudo dela lhe instigava a curiosidade num nível não muito alto, apenas a ponto de continuar apenas a observá-la incógnito e irreconhecível. Se ela trocava olhares ele não desviava, apenas a encarava firmemente, fingindo que não a estava olhando de verdade, mas apenas perdido em devaneios loucos quaisquer... E ele fingia isso muito...

O Rei Solitário

Havia um rei e seu castelo. Não haviam guerras para serem travadas, nem soldados para guerreá-las. Nem casas para serem habitadas ou plebeus para que as habitassem. Não haviam piadas para serem feitas, nem menestréis para contá-las. Tristezas e felicidades já não eram mais sentidas. Nem o vento soprava fazendo das tardes mais frescas. A chuva que caía não trazia mais as antigas nostalgias. Os familiares o deixaram por que não sentiam mais conforto em ficarem ao seu lado - ele os havia espantado. Seus súditos haviam ido embora por que o reino não era mais produtivo como outrora. As moradias estavam destruídas, o castelo empoeirado, as colheitas todas secas... Era um reino abandonado. O rei ficava apenas ali sentado, pensando sem pensar, com o queixo apoiado no punho cerrado e não tendo forças para um mero pestanejar. Pensava na morte, pensava na vida, coisas bobas do dia-a-dia. Lembrava às vezes dos tempos antigos, de quando aproveitar a vida era agradável, mas tudo havia virado passado...